O papel do saneamento básico na pandemia

O papel do saneamento básico na pandemia

O papel do saneamento básico na pandemia

Coleta e tratamento adequado de esgoto, e a redução de sua geração a partir do combate às perdas de água, são medidas que deveriam ter sido adotadas previamente para proteger a população

O Covid-19 e a quarentena proporcionaram novos aprendizados, dentre os quais o de que existe a possibilidade de contaminação do novo vírus em função do não tratamento de esgotos. Essa é a visão do engenheiro e consultor Enéas Ripoli, CEO da Consultoria GestÁgua, especializada na área de saneamento, e CTO da SmartAcqua Solutions, que se baseou em estudos e num fato recente e noticiado sobre a descoberta, por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da presença do coronavírus no esgoto em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.  Outra matéria da BBC News Brasil focalizou os estudos realizados na China e em Cingapura que foram publicados na revista científica Lancet Gastroenterol Hepatol, revelando que as fezes dos pacientes infectados continham o material genético do vírus (RNA) e este permaneceu por cerca de cinco semanas, mesmo após as amostras do trato respiratório terem sido negativadas.

Outras pesquisas realizadas na Holanda indicaram que o monitoramento do esgoto para verificar a presença do coronavírus seria uma estratégia para detectar a doença na população, inclusive nos portadores assintomáticos. “Apesar de ainda não haver estudos que comprovem essa outra via de transmissão do vírus, é algo que preocupa porque se isso for confirmado, boa parcela da população do Brasil pode correr sérios riscos,  uma vez que, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2018, é feito tratamento de apenas 46% do esgoto gerado no país. Além disso, cerca de 100 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto e 35 milhões não têm acesso à água tratada”, destaca Ripoli.

Segundo o executivo e consultor, as empresas públicas de saneamento básico já se caracterizam pela morosidade na adoção de ações e de novas tecnologias existentes que contribuiriam para melhorar o atendimento à população. “Neste momento, essas empresas estão executando o estritamente necessário, e em rodízio, enquanto as empresas privadas do setor mantêm as operações de forma habitual por questões de saúde pública”, salienta. Os governantes, de acordo com Ripoli, deveriam deixar de lado suas posições políticas e unirem forças com as empresas de saneamento, profissionais da área de saúde, escolas, universidades e os órgãos de comunicação para o enfrentamento desta crise e para melhorar as condições de vida da parcela mais carente da população.

Ripoli destaca também o projeto “Diretrizes para Universalização do Saneamento no Brasil”, realizado pelo Instituto de Engenharia (IE) que preconiza a necessidade de se fazer um planejamento consistente para eliminar as deficiências do saneamento e atrair investimentos para o setor e para todos os componentes da sua cadeia. “Esse estudo traz informações importantes como o da Organização Mundial de Saúde que mostra que se fossem investidos US$ 10 bilhões anuais na melhoria do saneamento nas regiões em que há maior incidência de doenças relacionadas à água, seria possível reduzir algo próximo a US$ 40 bilhões no sistema de saúde que são gastos no tratamento dessas enfermidades”.

Estima-se ainda que 2,0 bilhões de m³ de esgoto são gerados desnecessariamente por ano por falta de gestão eficiente (combate às perdas de água) e, sem coleta ou tratamento, percorrem nossos córregos e rios podendo transmitir, além do Covid-19, outras tantas doenças tão graves quanto.

Outra medida apontada pelo estudo do IE é a necessidade de ampliar a formação de profissionais especializados de nível superior e técnico, assim como de fomentar o desenvolvimento de novas tecnologias para a área de saneamento, dentre as quais se incluem as soluções da Indústria 4.0 para monitoramento, gestão e automação. “Com base nesse escopo, a SmartAcqua Solution desenvolveu uma solução inovadora para combater especificamente as perdas de água no país que são da ordem de 50%”, destaca Ripoli.

A ferramenta, segundo Hélio Samora, CEO da SmartAcqua Solutions, permite identificar onde, como, quanto e porque essas perdas estão ocorrendo e ainda possibilita estabelecer um planejamento das ações que devem ser tomadas para minimizar o problema. Baseado em arquitetura nativa na nuvem (Cloud Based Architecture), o SmartAcqua oferece a tecnologia para que as empresas de saneamento – privadas e públicas – consigam implementar a solução de forma rápida, sem precisar  investir em infraestrutura de TI, com acesso por qualquer dispositivo móvel, como tablets, smartphones e notebooks, e preparada para os sistemas operacionais Windows, IOS e Android.

Também foi desenvolvido pela SmartAcqua Solutions, em parceria com a GestÁgua Consultoria, um aplicativo (http://smartacqua.com/smartacqua-app/) disponível gratuitamente na Apple Store e Google Play, com o objetivo de quantificar as perdas de água e potencializar os benefícios de seu combate, inclusive referente ao esgoto gerado desnecessariamente em cada cidade brasileira, ajudando as empresas de saneamento e a população a entender a gravidade do problema.

Para Ripoli é importante que as prefeituras dos mais de cinco mil municípios brasileiros criem um plano para educar a população sobre as questões relacionadas à higiene e ao descarte correto do lixo e, principalmente, que a motive a exigir ações da parte de políticos e administradores públicos e privados para melhorar substancialmente o saneamento básico. “Saneamento é uma questão de saúde e hoje, mais do que nunca, esse assunto ganha maior relevância”, finaliza.

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